Cara Monalisa,
Ouvi uma coisa hoje inteiramente nova, dessas coisas que de tão inteiramente novas soam antigas demais, era algo assim como “nada realmente acontece até que tenha sido descrito” ( eu que sei bem dos perigos do contrário... do que deixa de acontecer bem pelo excesso de descrições...). Isso tudo não me ocorreu nem foi idéia minha. Era algo que Virginia Woolf costumava dizer ao interrogar seus amigos sobre detalhes do seu dia afirmando categórica que algo interessante acontece todos os dias. Precisamos narrar o dia para que ele nasça.
Eis aqui então alguns detalhes do meu dia. Como vc pode imaginar, eu tenho esse talento para escapar, logo te escrevo bem de onde não deveria e isso me traz aquele prazer que nos toca ao visitarmos o proibido, mesmo que pequeno, como pisar na grama e ignorar as placas....
A imagem de Virginia enchendo seus bolsos de pedra desarmou minha atenção.
Escrevo pela necessidade de ser testemunhada.
Acho que ser livre implica uma escandalosa coragem, que pode facilmente, aos olhos dos mais apressados ser confundida com falta de esperteza. Estamos sempre inclinados a construir um modelo, suave ou não, porque estar fora dele, nem nas margens, mas no MEIO do rio, na coragem de ser absolutamente o que se é... exige mesmo um parentesco com o precipício.
Sinto que hoje meu vigilante descansou... e eu acordei assustadoramente livre, como há muito não...claro que isto infelizmente implica certas conseqüências para a vida social. Tomei o meu café sem medir a quantidade de gotas de adoçante, não lavei a louça - ao em vez disso encarei aquelas formas na pia como quem contempla uma fotografia, olhei para o que quis... mesmo não vendo nisso qualquer utilidade.
Só por hoje desisto de procurar por respostas, ou ser encontrada por elas... me assumo ignorante, pequena, perdida, confusa, sendo...
Virginia não só tinha coragem, mas precisava de se jogar dentro das horas e dissecar a vida... curiosamente eu tb hoje me jogo, assumindo não saber o que sei, o que sinto, o que penso, o que quero, o que não quero...me sinto talvez possa afirmar , ainda que com dúvidas, possuída pelo desejo de viver a beleza, e de olhar a solidão na cara com seu escancarado e cínico sorriso, como quem diz – aqui estamos. E de talvez dizer verdades incompreendidas para aquela outra solidão que também me olha na cara.
Pronto, agora sim dei ao meu dia a vida que ele merecia...descrevo, inscrevo, e ele passa então a existir....frágil mas vibrante, cheio de vazios....espaços de grandes interrogações e uma saudadezinha miserável, intrusa e completamente desobediente, a qual não permiti estar aqui, e no entanto torna-se uma presença; ausências que fazem companhia...?
P.S: MUITO POUCO DISSO TALVEZ SEJA VERDADE... POIS “ FATOS SÃO UMA VERSÃO EMPOBRECIDA DA FICÇÃO”

0 comentários:
Postar um comentário