domingo, 24 de abril de 2011

EXERCÍCIO DE CRÍTICA TEATRAL





Depois que a coisa toda começou: possibilidades de re-conhecimento.


Maria Cláudia Lopes

Foi embriagada da mesma volúpia infantil que sentem as crianças nas suas primeiras experiências como espectadoras no teatro: diante da cortina prestes a abrir, o coração acelerando e já encantado pelo que nem se deu, mas pelo que já é esperado e imaginado e, por aquilo que, provavelmente, transformará para sempre o seu olhar e o espaço ao seu redor – o qual voltará a tornar-se vazio, preenchido depois apenas pela sua memória. Foi assim mesmo que me encontrei no dia 02 de Abril de 2011, na platéia espremida do CCBB, São Paulo, para ver o grupo pelo qual nutro a maior admiração possível.

Disputei literalmente, com uma estranha, um acento melhor em que pudesse apreciar inteiramente o espetáculo - ANTES DA COISA TODA COMEÇAR, apresentado pelo Grupo Armazém Companhia de Teatro – a mulher acreditou que eu teria me equivocado de cadeira propositalmente para me auto-privilegiar e beneficiar minha visão, o que não foi verdade mas que poderia facilmente ter sido.

Um cenário que a princípio parecia muito simples, no bom sentido da palavra, e no qual só se via um espelho, diante dele uma cadeira, e iluminado por um refletor pinbin uma caveira um tanto quanto esdrúxula - já que seu “nariz” se assemelhava a uma máscara de palhaço – referência que só compreendi depois com o desenrolar da dramaturgia. Biombos enormes fechavam a boca de cena, pintados de uma cor acinzentada, nada revelavam de similar às produções grandiosas já realizadas pelo grupo. Mas como tudo o mais nesta montagem e em outras do Armazém, nas quais estamos sempre nos surpreendendo pela sensação de “atravessar o espelho de Alice” e ver desdobrando-se complexidades dentro do que parecia simples e óbvio, o cenário ia também ( e tão bem) aos poucos revelando-se, em profundidade e em possibilidades de uso; incluindo aí a iluminação para as cenas que aconteciam no “hospital” e nas quais desciam uma lâmpada comprida, similar às encontradas nas escolas e hospitais, muito brancas, que compunham de forma muito perspicaz com a cena.

Essa “mecânica” de transformação do espaço aliada a uma excelente dramaturgia são uma marca registrada do grupo, mesmo tentando eles, como dito em debate que se seguiu, viver um processo de re-descoberta, em que não cederiam ao peso de ter que ser o que deles já se conhece, mas questionando-se saudavelmente sobre onde encontrariam na criação aquele mesmo impulso de vida procurado pela personagem Zoé - o impulso da criação, do que fosse novo para eles. A busca do grupo realmente os direciona para um lugar autêntico ainda que em sua linguagem possamos reconhecer algumas “feições de sua história”, que mais do que apontar um possível comodismo, creio que revelem a maturidade de quem já se aprendeu.

Existe, por essa maturidade, uma harmonia entre os elementos de composição da encenação que não me permitem discorrer sobre os mesmos separadamente. Ressalto então, mais uma vez, a dramaturgia de Maurício Arruda Mendonça e Paulo Moraes, e a dramaturgia nos atores ( já que esta não poderia ter se dado com tanta qualidade se não fosse a compreensão e material humano dos intérpretes): personagens complexas e muito diversificadas ainda que ligadas por temáticas mesmas; ligação sutil e por isso mesmo forte entre as três histórias que representa total coerência com a idéia dos “espectros” - é como se todos fossem parte de uma alma só; a personagem do ator que não pode encontrar frescor no que faz... compõe com a idéia do fantasma do ator que representou tantos papéis que já não sabe mais onde encontrar a sua alma, e esta, por sua vez, compõe com os fractais de luz despejados pelos espelhos em cena, que compõe, concluindo sem portanto poder, com a discurso do grupo de busca de um lugar realmente novo, depois de tantas vidas que já tiveram.

A caveira, objeto de cena do início, bem como a cena em que a morte se personifica e conversa com o ator, dialogam com trechos de Hamlet, tomam emprestado essa e algumas outras “idéias”, assumidamente, dizendo através da boca de alguns personagens “essa idéia não é minha, mas tomo ela emprestada para dizer o que de outra forma não poderia” ; este objeto representa a síntese, e o tal nariz esdrúxulo remete ao bobo da corte de Hamlet, e, possivelmente a todos os atores e seus contínuos renascimentos e mortes.

A química de trabalho entre os atores é muita clara, visto que trabalham juntos há muito tempo, destoando um pouco a atuação de Rosana Stavis, não por ter menos qualidade, mas por não alcançar talvez o mesmo espaço de cumplicidade, em alguns momentos do espetáculo, como no início. Sabemos, no entanto, que este julgamento carinhoso é feito a partir de um dia específico, e a arte do ator sendo ingrata neste sentido - suas performances sempre serão variáveis, por melhor que sejam, todos os dias.

Uma sugestão eu faria, humildemente, como fã incondicional e consciente de que esta crítica esteja contaminada por todas as experiências muito positivas que tive ao acompanhar vários trabalhos do grupo desde a adolescência: sinto que as projeções no início com a apresentação de cada ator-personagem, no tom de musical, arrastam o espetáculo para um lugar não muito interessante; é “bacana” a contribuição da tecnologia que oferece as projeções; é “corajoso” o uso da música ao vivo, mas em alguns momentos tornam-se semelhantes àqueles filmes que devido aos “grandes efeitos” ofuscam uma beleza mais sutil que está ali e não pode ser integralmente revelada, a cena inicial é silenciosa e proporciona uma abertura da escuta, e ainda que seja sabido da importância dos contrastes em arte, a cena de abertura com as projeções não construíram uma quebra muito favorável à poética proposta. Em outros momentos, no entanto, a exemplo a cena do travesti, a música colore com pitadas de um humor inteligente o cinza que a temática aborda.

Difícil reconhecer a necessidade de reconhecer-se, manter vivo o espaço de autêntica criação, não contentar-se com o que já somos , ou fomos, expandirmos a medida da coragem que temos e da força que possuímos. Admito pois, ser suspeito para mim, como fã que sou, concluir se o intento foi cumprido ou não, se bem sucedido ou não, se conseguiram se reinventar como sugere a imagem da borboleta no programa da peça...ou não; mas afirmo, sem titubear, que conseguiram falar sobre essa busca, e que fizeram isso com uma qualidade de trabalho e poesia inegáveis.

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