Fragmento da memória:
Eu pequena. A sala maior da casa da minha tia. A sala maior e eu pequena. Uma pintura de uma mulher com cabelos alaranjados voadores e olhos quase amarelos, olhos caramelados que pareciam ter sono e ainda despertos mais que os meus...passava quase horas eu, ou talvez menos, mas eram grandes os minutos, repletos de uma espécie de atração e medo...eu pequena olhava, olhava e olhava...ou era ela? De tão estáticas tínhamos movimento, eu nadava naquele olhar inventado, como podia? Eu sempre afeita às inexistências do que não é...magnetismo, aquela imagem era eu mesma, e se não que outra era essa que me fitava como um espelho imóvel de dentro daquela sala? Tinta pode assim criar esse tipo de vida, ou detonar estranhezas e desconhecimentos...eu era ela? A mulher quase feita de sol apontando luas de mim...e sem sorrir, sorria, morando sem permissão. Vida doida...pode? Eu temia aquilo mas não conseguia não sair de perto daquela presença avermelhada na sala da casa da minha tia, e o relógio fazia...dim....dom...quando ela de repente se virava de novo em quase nada, um quadro somente, numa moldura...uma quadro quase sem graça...mas que era pra mim porta, janela pra meus mistérios pequenos. Eu pequena, a sala maior...

0 comentários:
Postar um comentário