Domingo, 12 de Julho de 2009
Segunda-feira, 6 de Julho de 2009
sinto essa saudade profunda do que não conheço
saudade sem direção, nome, endereço
costumava achar que isso era teu
essa saudade ácida que nem a presença anula
mas não é, eu entendi meus pertencimentos
tenho essa habilidade de amar os espelhos de toda parte
e gosto de amar com essa fundura dos afogados
de quem se debruça sobre um rio de água espessa, e bebe.
Quarta-feira, 1 de Julho de 2009
sobre o amor invisível e suas implicações

Amor que acontece sem testemunhas a não ser das próprias mãos que se procuram no segredo do escurinho e longe do alcance dos mil olhos que a cidade tem.
Amor sem testemunha, nem que seja do cobrador do ônibus, é feito um sol que nasce bem na frente da gente e por descuido a gente deixa de olhar, descuido ou medo da luz.
Amor velado, de muita cumplicidade e poucos cúmplices, um amor que não anda de mãos dadas na rua, nem faz chá de panela quase, nem se declara na sala de aula, e só provavelmente as árvores frondosas das praças menos visitadas tem conhecimento.
Queria falar um pouco desse lugar para o qual o coletivo acaba empurrando a gente, a marginalidade. E tudo bem que haja uma certa graça e beleza na margem e no amor de esconderijos, tão solitário e tão raro….mas enche o saco viver sempre as coisas mais bonitas na surdina, cochichando no ouvido, escrevendo cartas que teriam que ser rasgadas rapidamente não fosse o fato de não estarmos mais na década de 80 - verdade um pouco e ilusão um pouco a “mudança”, porque a vergonha do amor invisível, e o costume de se proteger impede a gente de viver sem reservas e com absoluta sinceridade esse tipo de amor, o amor invisível.
Mesmo, assim, confesso… é inevitável sorrir ao pensar no que a maioria das pessoas perdem do amor que por distração confinam na eternal discrição. Um pouco mais de cuidado no olhar e ali do lado de vocês um sol nascendo, ou uma chama de vela que seja…duas pessoas se abraçam em pensamento sem que possam dividir tão claramente a alegria disso. Queria falar um pouquinho então, um pouquinho só sobre esse tipo de amor, o quase imperceptível…amor incompreendido pelos pais, silenciado pelos professores, recebido com reservas por alguns amigos e primos, e que tem a obrigação de se bancar sem passear no shopping grudadinho, e que acaba se fortalecendo porque tem que se saber além disso. Amor proibido, não reconhecido… pequenos milagres ignorados…
Sábado, 13 de Junho de 2009

eu não estou pra vitrines, estou mais pro fundo de uma caverna
eu entrei pro clube do Hamlet e estou na morbidez da falta completa de cores
e a única coisa que importa são esses questionamentos reticentes
sobre a constituição das coisas
sobre a ruína humana
é preciso tanto amor pra se suportar em dias assim…
frios
desérticos
uterinos
e é preciso muito amor para que te suportem
talvez só a companhia de um poeta que sobrevivera em suas linhas
o que é a vida, esse rabisco torto?
esse sopro, essa linha que o tempo molda?
e que de repende vai se esvaindo e tornando as avozinhas leves?
o que é essa nota suspensa em pauta, fermata, sem tempo certo
de duração?
e como é que se pode morrer assim tão antes de que tudo pare
de pulsar?
que força tem a morte, meu deus, com o seu hálito de cachaça e sal
manchando as paredes
avançando e engessando a vida sem que se repare nela
pretificando sorrisos, sonhos…
ácida, com seu passo lento e preciso.
Domingo, 7 de Junho de 2009

das cores imponentes e carinhosas
dos filmes italianos:
as ruas estreitas e velhas
as senhoras casas cochichando verdades seladas
a lua que aparece grande, imensa-
gangorrando as poucas estrelas que ficam...
o prazer do caminhar mansinho
amparado pela brisa fria
goles de um vinho tinto e suave no café da manhã
a liberdade de sonhar sem julgamentos
os casais apaixonados imaginando a passos curtos suas danças
dois senhorzinhos de chapéu jogando baralho
sentados a mesa de forro vermelho vivido
o amor sem cura ou explicação que brota teimoso
pelas pedrinhas da rua
desejo rendido de mãos que se seguram
enquanto apreciam a feira
encontros distraídos que talham fundo na madeira da gente
mais que sonhos, paisagens e sensações
a permeabilidade humana
o grito do trem no matadouro
aninha riso e choro
a fumaça tinge o branco de mais branco
em breve trilhos vazios congelando ponteiros
e dias mais iguais fazendo a economia dos grandes dias
no entanto há o sempre balé dos capinzais mais altos
a sempre aparição insólita de um inseto inventado
o barulho de rolhas ecoando
nas pequenas cozinhas, o cheiro de temperos antigos
e aquele riso sem preço e sem motivo das mulheres
desenhando curvas com as saias orgulhosas
sapatos do couro bom fazendo música
nas pedras da calçada
de novo o berrar do trem que chega costurando vidas
