domingo, 27 de novembro de 2011



Remédio(s).

Maria Cláudia S. Lopes

Remédios era moça trabalhadeira, ágeis braços e pernas acostumados à labuta. Quase nunca parava nem pra descansar a perna, que da moça que foi só sobrara-lhe mesmo o nome apenas, usado por mero hábito e empregado por meia dúzia de bêbados do bar para onde cozinhava a noite: pequenas porções, e às vezes cumprindo muito a contra gosto a função de garçonete. Mas se era trabalho ela nunca recusava. As suas mãos eram tidas mágicas, desde sempre curavam as coisas... amaciavam o que fosse duro, intragável...tratavam. Era pensando nisso que varria o chão da cozinha, umedecia os panos, acariciava as mesas. Se bonita? Era, ou tinha sido... era, da beleza um pouco mal tratada pelas horas de labor, de escasso descanso, mas bonita sim.
E se conheceram ao acaso de um esbarrão no ponto do coletivo, desafinaram os passos. Para ele era só destino, fato que devia cumprir-se pra nunca voltar a si, porque assim pensam os apaixonados, tentando amigar-se das estrelas pra explicar o que não tem motivo ou causa...mas que nos deixa perplexos...amar, amor...Para ela só coincidência, dia comum, sem memórias...na pressa do percurso o encontro com um outro entre tantos outros... estranhos.
Conversaram. Gilmar precisava de cozinheira, precisava também de mulher mas isso era coisa que silenciava. Acertaram. “- Combinadíssimo então, meu nome é Remédios”. E ele: “Prazer, encantado”. Alegrias diferentes sentiram daquele encontro entre destino e pura coincidência, mas sentiram os dois, esperanças, leve pressentimento de início.
Mas com o tempo tanto: o irremediável: febres incuráveis, ciúme intratável... tentava afastar os bêbados que por brincadeira a assediavam. Queria sem querer, persistente e desacertado. Ele nunca abandonado por aquilo. Remédios e suas mãos, Remédios e seus passos leves caminhando pelo espaço, Remédios e seu sorriso que dava jeito no feio, Remédios e seu tempero que abrandava o que não fosse, o que doesse... ele querendo muito, mancando pelo bar, só desejo contido mas escapável em momentos assim...amor escorregando dele, teimoso, traindo sua discrição.
Se falara? Nem carecia. Gilmar e seu amor eram notáveis por ela e todos. Modo como respirava quando olhava, modo como vigiava seus passos, modo como se encontrava eufórico quando ela um tanto desavisada demonstrava por ele outro tipo de afeto. Uma vez comentara com ele, de coração aberto, que sabia nunca mais ia querer marido, que o dela partira pra longe, pro lugar do inalcançável, outra coisa irremediável que a vida não pode tratar, e Gilmar triste tristonho, com vergonha de si, se achando pouco pouco diante da fartura daquele coração que adivinhava de longe. Amor tem cura?
Remédios um dia veio com a notícia de mudança. Uma prima de longe adoecera e precisava cuidados na casa, ia pagar bem também, e foi. Só sonhava. Pela notícia choveu pelos olhos, choro pouco daqueles que o dono tem que se esforçar pra ver, vida seca, terra seca, nem as pessoas chovendo, invisíveis enchentes. Imaginava o que seria quando ela fosse, lugar vazio, sem aquelas mãos cuidadoras, sem poder imaginar o amor imaginável entre. Não podia...ainda que do antes 58 anos vivera no incurável viver, não podia mais.
Do lado do degrau que dava pra fora, no susto da coragem pegou sua mão. “Fique e eu te dou o céu, Remédios”. Mas ela não podia não, e doía-lhe também não poder, doía-lhe macio, aceitava que não conseguisse curar coisas, aquela doce coisa menos ainda. Respondeu só com olhar de ida, sem volta, vou, vou, vou... tenho que ir.
Ele caiu doente dia seguinte, nada lá fora se importava. Sono sem fim, janelas fechadas, viver sem Remédios era morrer vivo, sentido na carne, no sangue, nos ossos. Porque sabia agora que existia ela, e não podia viver sabendo sem querê-la. Amigos batiam na porta, clientes iam embora, e ele ali no seu túmulo, deixando escorrer de si tudo que fosse aquilo, quem sabe se... deixando escapar de uma vez esquecia de pronto? Passaram dias, e não esquecia, nem se lembrava de nada que não fosse ela, tempo todo, todo tempo...
Foram chamar a moça, que ainda ali na cidade não partira, ajeitando a vida para ir. Disseram-lhe que algum jeito tinha que dar naquilo - Gilmar nem comia, nem ria mais nunca, daquele jeito não dava. Ela foi, por amor também, outro... entrou devagar no quarto escuro, ele a sabia ali de decorar o som dos passos, nem disseram nada, se olhavam indeterminadamente, sem consciência das horas atravessando o colchão. Colocou a mão em sua testa, suava... pensou mesmo em ceder àquela coisa tão grande morando nele, ela pensou em sucumbir, abraçar aquilo, mesmo querendo menos...mas não podia. Não podia. De modo que foi até a cozinha, pela vez última, apanhou erva de Alecrim, que sabia dava jeito em quase tudo, apaziguava as humanices , aplacava angústia. Alecrim sabe ninar a gente, descendo morno, regando jardins. O cheiro no espaço penetrando ia. Ela encheu a caneca e deu de beber, aquele remedinho segredo da mãe nos funerais da família, que benção era sempre para todos. “Remédios...” – ele sorria, pela primeira vez em muitos dias. Amar era isso também? O que era um e outro no querer diferente, se encontrando no escuro, sendo. O que não tem remédio o tempo maior trata. Amor era isso?

terça-feira, 4 de outubro de 2011

domingo, 25 de setembro de 2011




Fragmento da memória:

Eu pequena. A sala maior da casa da minha tia. A sala maior e eu pequena. Uma pintura de uma mulher com cabelos alaranjados voadores e olhos quase amarelos, olhos caramelados que pareciam ter sono e ainda despertos mais que os meus...passava quase horas eu, ou talvez menos, mas eram grandes os minutos, repletos de uma espécie de atração e medo...eu pequena olhava, olhava e olhava...ou era ela? De tão estáticas tínhamos movimento, eu nadava naquele olhar inventado, como podia? Eu sempre afeita às inexistências do que não é...magnetismo, aquela imagem era eu mesma, e se não que outra era essa que me fitava como um espelho imóvel de dentro daquela sala? Tinta pode assim criar esse tipo de vida, ou detonar estranhezas e desconhecimentos...eu era ela? A mulher quase feita de sol apontando luas de mim...e sem sorrir, sorria, morando sem permissão. Vida doida...pode? Eu temia aquilo mas não conseguia não sair de perto daquela presença avermelhada na sala da casa da minha tia, e o relógio fazia...dim....dom...quando ela de repente se virava de novo em quase nada, um quadro somente, numa moldura...uma quadro quase sem graça...mas que era pra mim porta, janela pra meus mistérios pequenos. Eu pequena, a sala maior...

domingo, 28 de agosto de 2011



uma reverência ao que cresce a revelia de nossas vontades
sem razões aparentes...
como perdoar-se pelo que em nós não pede licenças?
a vida tem vida própria

sábado, 30 de julho de 2011



Monalisa pensou...fui agraciada com uma atenção involuntária, ela segue critérios próprios e sabe extrair das coisas apenas as coisas que lhe interessam, ou quase isso. É.. atenção sua era selvagem, não civilizada...e todos os dias aquela luta de domar atenção, ensiná-la a sentar e não perder detalhes tão aparentemente importantes do cotidiano, como cadarços desamarrados, o número correto do ônibus que se tem que pegar...em vez de se ater à sombra dos galhos no chão, e ao desenho das nuvens...um balão distraído cuidadosamente embalado por uma criança pequena. Sua atenção sempre fora um cavalo sem rédeas...péssima metáfora, mas sem poder haver outra...é essa mesmo. Monalisa tão querida, e nem era ensimesmamento...era outra vida que não dela sua atenção...esparramada sobre as coisas, sem obedecer a dona. E ela sempre a tentar ensinar gramática à atenção, fazer ela entender que o mundo é tão mágico quanto lógico. Mas hoje... ela decidiu soltar sua coleira, e deixá-la correr e se esfregar na grama, hoje deu alforria a sua atenção para observar insetos e sentir a temperatura do vento....e respirou fundo, aliviada.